Garrafa de The Party Malbec 2017 ao lado de uma taça de vinho tinto servida, sobre mesa posta em luz baixa, com vela acesa e pratos ao fundo
Série Compre um Vinho pelo Rótulo I
N.º X — degustações

O Rótulo Chama

The Party Malbec 2017, Matías Riccitelli · Vale de Uco.

26 agosto · 2026 · leitura de 5 minutos · por Leandro Lima

Existe um preconceito confortável no mundo do vinho: o de que escolher pelo rótulo é coisa de quem não entende.

Confortável porque é fácil de repetir e dispensa argumento. Quem diz isso raramente explica o que deveria ser feito no lugar. Decorar produtores? Confiar na prateleira da loja? Seguir pontuação de crítico? Todos esses também são atalhos — apenas atalhos com mais prestígio.

Eu prefiro outra leitura. Escolher só pelo rótulo é uma aposta. Mas ignorá-lo completamente também é perder uma pista.

O rótulo é a única coisa que o produtor controla inteiramente e que chega até você antes do vinho. Tudo nele foi decidido: a tipografia, o que se diz e o que se cala, se há uma imagem e qual. Nenhuma vinícola erra por acaso na etiqueta. Quando um rótulo é sóbrio, isso é uma escolha. Quando é barulhento, também.

Isso não significa que ele conte a verdade sobre o líquido. Significa que ele declara uma intenção — e intenção é informação.

A sérieUma garrafa por vez

Em cada entrada desta série eu escolho uma garrafa que chama atenção pela embalagem e faço o caminho completo: o que o rótulo promete por fora, o que o produtor faz por dentro, e se as duas coisas se encontram.

Às vezes vão se encontrar. Às vezes não — e esse caso também merece ser contado, porque é o mais instrutivo dos dois.

Para abrir, uma garrafa que não disfarça.

Garrafa de The Party Malbec 2017 segurada na mão, mostrando o rótulo ilustrado com uma cena de festa: personagens fantasiados, taça erguida e arquitetura ao fundo
O rótulo do The Party: personagens fantasiados, taças erguidas, movimento em todas as direções.

O que o rótulo dizUma festa na frente da garrafa

Na etiqueta, uma cena de celebração. Personagens fantasiados, uma taça erguida, movimento em todas as direções, arquitetura ao fundo.

Não sei quem assinou a ilustração nem de onde ela vem. Não encontrei nenhuma fonte da própria vinícola identificando autor ou origem da obra, e prefiro não inventar uma história só para caber no texto — o que já é, por si só, uma pequena lição sobre ler rótulos: nem tudo o que uma imagem sugere está documentado em algum lugar.

Mas não preciso da procedência para ler o gesto. A escolha de pôr uma festa na frente de um Malbec de altitude diz alguma coisa. Diz que este vinho não quer ser recebido com solenidade. Diz que a casa não está pedindo reverência.

O risco desse tipo de rótulo é conhecido: quando a embalagem grita, costuma ser porque o conteúdo precisa de ajuda. É exatamente por isso que esta série existe — para virar a garrafa e conferir.

O que a garrafa fazDuas decisões que mudam tudo

Matías Riccitelli construiu seu próprio projeto em Mendoza e trabalha com vinhedos de altitude no Vale de Uco, com uma abordagem de baixa intervenção. O The Party é a linha em que essa liberdade aparece com mais clareza — inclusive no nome.

Em resumo
ProdutorMatías Riccitelli
OrigemVale de Uco, Mendoza · Argentina
UvaMalbec
Safra2017
ElaboraçãoCachos inteiros · fermentação em concreto

São duas decisões técnicas, e nenhuma delas é neutra.

Cacho inteiro significa não desengaçar: a uva entra no tanque com o engaço. Isso muda a extração, acrescenta uma camada de especiaria e tende a puxar o vinho para o lado floral e aromático, em vez do lado denso.

Concreto significa não usar madeira nova. O tanque é inerte e não empresta aroma. O que sobra na taça é a uva e o lugar, sem a camada de baunilha e tosta que padroniza tanto Malbec argentino por aí.

Somadas, as duas escolhas apontam para o mesmo lugar: um Malbec que não busca peso. Busca tensão.

Nota de prova — a preencher

Leandro, este é o parágrafo que precisa ser seu. A pesquisa em Decanter e Wine Enthusiast aponta para fruta vermelha fresca, framboesa e ameixa, notas florais, frescor e caráter mineral — mas a leitura que vai para o texto tem que ser a da sua taça, não a das revistas. Duas ou três frases bastam.

O encontroQuando a promessa se sustenta

É justamente esse encontro que me interessa. Quando a estética chama a atenção e o que está dentro sustenta a escolha, o rótulo deixa de ser embalagem e passa a ser a primeira frase do vinho.

O contrário também existe, e é mais comum do que se admite: garrafas bonitas que não têm o que dizer depois da primeira taça. Nesses casos o rótulo não mentiu — apenas falou sozinho.

O rótulo chama.
O repertório decide.

Nenhuma das duas coisas funciona sem a outra. Sem o chamado, você nunca teria tirado a garrafa da prateleira. Sem o repertório, não saberia dizer se valeu.

É por isso que continuo achando que a pergunta certa nunca foi “pode-se escolher pelo rótulo?”. A pergunta é o que você faz depois de escolher.

L.L.

São Paulo · 26 de agosto de 2026 Caderno I · N.º X · Série “Compre um Vinho pelo Rótulo” · I