Cozinha em luz baixa: panelas no fogão, um prato de berinjelas grelhadas, uma taça de vinho tinto servida e uma garrafa de Chianti Classico sobre a tábua de madeira
N.º IX — ensaio

O Momento em que a Chave Vira

Percepção, treino e o instante em que somos fisgados.

12 agosto · 2026 · leitura de 5 minutos · por Leandro Lima

Vejo muita gente começar a beber vinho angustiada por achar que não consegue sentir nada de especial em uma taça. Gostam de vinho como gostam de qualquer outra bebida, sem entender por que tanta gente fala de aromas e nuances que parecem não existir. Reconhecem quando um vinho é frutado, mas têm dificuldade para perceber a diferença entre um vinho simples e um complexo, ou para identificar aromas além de uma impressão genérica de frutas.

É verdade que a sensibilidade olfativa varia de uma pessoa para outra. Algumas têm mais facilidade para identificar aromas desde o início. Ainda assim, essa diferença inicial está longe de ser determinante: com treino e exposição constante, a maioria das pessoas desenvolve o olfato e o paladar o suficiente para reconhecer nuances cada vez mais sutis.

Mas qual é o momento em que a chave vira? Quando somos fisgados pela “alma” do vinho?

É comum que enófilos e profissionais do vinho consigam apontar um momento em que sua percepção mudou para sempre. Um momento eureka, por assim dizer. Gosto de dizer que o meu aconteceu… com uma cerveja.

Trabalhando desde cedo em restaurantes, tive a oportunidade de provar alguns grandes vinhos. Em geral, percebia que eram superiores aos demais, mas, por mais que me esforçasse, não conseguia distinguir suas nuances aromáticas — muito menos explicar por que me pareciam melhores. Meu vocabulário se limitava a descrições genéricas, como “frutado” ou “seco”.

Fachada do Cibrèo Caffè em Florença à noite, com a placa iluminada, luminárias acesas e uma mesa posta na calçada
Cibrèo, Florença. O primeiro treinamento sensorial não aconteceu diante de uma taça — aconteceu na cozinha.

Algumas pessoas descreviam uma quantidade de aromas que, sinceramente, não pareciam estar na minha taça. Durante algum tempo, desconfiei daquele universo — e também de quem afirmava perceber tudo aquilo com tanta convicção.

Diferentemente de muitas narrativas românticas sobre vinho, a minha percepção mudou tomando uma cerveja, e não um Mouton Rothschild 1982 ou algum outro ícone, como é comum de se ouvir em algumas rodas.

O ano era 2008. Supermercados e lojas especializadas começavam a oferecer uma variedade de cervejas muito maior do que as tradicionais pilsen. De repente, havia rótulos da Bélgica, da Holanda, da Inglaterra e da Alemanha disponíveis, muitos deles por preços acessíveis. Eu e alguns amigos chegamos a montar um clube da cerveja: nos reuníamos nas folgas, dividíamos os custos e comprávamos tudo o que aparecia de novidade.

Foi durante uma dessas degustações que provei uma cerveja de trigo e senti um aroma diferente — e, pela primeira vez, consegui nomeá-lo: cravo. Olhei o rótulo e não havia cravo entre os ingredientes. Aquele aroma era produzido naturalmente durante a fermentação.

Naquele instante pensei: se isso acontece com a cerveja, talvez todo aquele barulho em torno dos aromas do vinho tivesse, afinal, um fundo de verdade.

Meses depois, perto do fim do ano, um chef com quem eu trabalhava abriu uma garrafa de Dom Pérignon. Peguei apenas um fundo de taça, mas senti aromas de café e biscoitos. Ali percebi que algo havia mudado. Eu estava fisgado.

Perceber aromas depende de treino,
mas também de oportunidade.

Sou cozinheiro e, sem perceber, passei anos treinando o olfato e o paladar. O contato diário com uma infinidade de ingredientes e preparos acabou sendo meu primeiro treinamento sensorial. É muito mais fácil reconhecer o aroma de amora em um vinho quando você conhece bem a fruta.

Já quanto à oportunidade, tive a sorte de trabalhar com gente generosa o suficiente para compartilhar boas taças comigo, nem que fosse um gole. Mesmo quando eu não tinha dinheiro para comprar uma garrafa de vinho, estava exposto a boas garrafas.

Nove garrafas de Bordeaux alinhadas sobre uma bancada, sob luz baixa, com um pote de rolhas ao lado
Depois da virada, vem o trabalho: provar, comparar, voltar à taça. O repertório se constrói assim.

Há, porém, um ponto importante: alinhar as expectativas, porque nem toda garrafa terá o potencial de ajudar no seu momento eureka. A grande maioria dos vinhos é simples — despretensiosa, feita para o dia a dia. Tem pouco a apresentar em termos de complexidade.

Por isso, sempre que puder, peça ajuda a um sommelier ou a alguém experiente para escolher vinhos que desafiem a sua percepção. Eles não precisam ser caros, mas devem oferecer alguma complexidade e singularidade. Talvez você não perceba nada de extraordinário nas primeiras taças. Ainda assim, tenha paciência. Deixe o vinho respirar, volte a ele alguns minutos depois, prove-o em diferentes temperaturas e gire a taça sem pressa.

Um dia, quando menos esperar, acontece. Eureka.

L.L.

São Paulo · 12 de agosto de 2026 Caderno I · N.º IX