Leandro Lima conduzindo uma degustação à mesa, com seis garrafas alinhadas e um grupo atento
N.º XI — mercado

O Ofício Começa Antes da Taça

Quinze anos da lei que regulamentou o sommelier no Brasil — e o que ela diz que quase ninguém leu.

28 agosto · 2026 · leitura de 6 minutos · por Leandro Lima

Há quinze anos, em 26 de agosto de 2011, a Lei 12.467 regulamentou o exercício da profissão de sommelier no Brasil. Vale reler o que ela diz.

Principalmente porque, ainda hoje, a profissão é quase sempre reduzida à imagem de alguém que chega à mesa para indicar uma garrafa. Alguém que aparece entre o pedido e o prato, sugere um rótulo, serve uma taça e desaparece.

O trabalho é muito maior do que isso.

O que a lei dizCinco atribuições, uma só delas visível

O artigo 3.º lista as atividades específicas do sommelier. São cinco:

Inciso I Planejamento · participar do planejamento e da organização do serviço de vinhos
Inciso II Aprovisionamento · assegurar a gestão da compra e da armazenagem
Inciso III Serviço · preparar e executar o serviço de vinhos
Inciso IV Atendimento · aconselhar, informar e resolver reclamações
Inciso V Ensino · ensinar em cursos básicos e avançados

Repare no que aparece nessa lista: planejamento, compra, armazenagem, organização, serviço, atendimento, formação. Uma única dessas sete coisas acontece na frente do cliente.

O resto acontece antes. Meses antes, às vezes.

Leandro Lima examinando uma garrafa antiga em uma adega de pedra, cercado por prateleiras de madeira
Aprovisionamento e armazenagem: o segundo inciso da lei, e o que menos se vê.

Na práticaO acúmulo que esvazia a função

Na operação real, porém, tornou-se comum encontrar o sommelier acumulando funções de gerente, comprador, garçom, hostess. Às vezes tudo ao mesmo tempo, no mesmo turno.

O problema não está na versatilidade. Quem trabalha em salão sabe que a casa pede jogo de cintura, e quem nunca cobriu uma função que não era a sua provavelmente nunca trabalhou em restaurante.

O problema está em uma operação que exige tantas funções da mesma pessoa que já não sobra tempo para exercer com profundidade justamente aquilo para o qual o sommelier deveria estar ali.

E é nesse ponto que muitas cartas de vinho deixam de ser estratégia e passam a ser inventário.

Rótulos entram. O estoque cresce. A equipe conhece pouco do que vende. E ninguém consegue responder com clareza por que cada vinho está naquela carta.

Uma carta que ninguém sabe explicar
não é uma carta. É um estoque
com preço na frente.

O caminho inversoOnde uma boa carta realmente começa

Uma boa carta de vinhos começa muito antes da mesa.

Começa na leitura da operação: quantos couverts por noite, qual o ticket, quantas garrafas saem por serviço, o que a cozinha faz e o que ela vai fazer na próxima estação. Começa no perfil de quem senta ali — e não no perfil de quem monta a carta.

Passa pela compra, que é decisão de capital parado. Pela armazenagem, que é o que separa uma garrafa guardada de uma garrafa perdida. Pelo giro, que é o que diz se a escolha funcionou. Pelo serviço, que é onde tudo aparece.

E termina — ou recomeça — no treinamento de quem vai apresentar aquele vinho. Porque a melhor curadoria do mundo morre na boca de um salão que não sabe do que está falando.

Leandro Lima em pé diante de uma parede de garrafas, segurando uma taça de vinho branco
Escolher a garrafa é uma parte do ofício. Fazer o vinho funcionar dentro da operação é outra.

É esse trabalho que desenvolvemos na Métier com restaurantes e hotelaria: consultoria de carta e formação de equipe, com independência de escolha e sem comissão de importadora.

Quinze anos depois, a lei segue dizendo o que sempre disse. O que falta não é regulamentação — é operação que dê espaço para a função existir inteira.

Porque escolher uma garrafa é só uma parte do ofício. Fazer o vinho funcionar dentro da operação é outra coisa.

L.L.

São Paulo · 28 de agosto de 2026 Caderno I · N.º XI