Arroz a banda na paellera, com camarões sobre a camada tostada do socarrat
N.º XII — vinhos & mundo

Não Chame de Paella

Em Alicante, se come arroz. E o centro do prato não é o que você imagina.

28 agosto · 2026 · leitura de 7 minutos · por Leandro Lima

Não chame de paella. Em Alicante, se come arroz.

A diferença parece pequena — coisa de purista, de quem gosta de corrigir os outros à mesa. Até você entender onde está o centro do prato.

Não é o camarão. Não é a lula. É o arroz.

E, antes dele, o caldo, a salmorreta, o açafrão, o tempo, e o ponto em que o fundo da panela começa a formar o socarrat.

O que vem antesO caldo é o prato

O arroz a banda nasceu de uma economia de pescador: o peixe cozido de um lado, o arroz cozido no caldo dele do outro. A banda — à parte. O que sobrava do serviço virava o fundo de tudo.

Esse fundo é um fumet. Tamboril, cascas de camarão, caranguejo. É dele que vem a profundidade do prato, e é por isso que um arroz a banda malfeito não se salva com marisco em cima: se o caldo é raso, o arroz é raso, por mais frutos do mar que apareçam na superfície.

Depois vem a salmorreta — tomate, pimentão seco e alho, refogados até virarem uma pasta escura. É ela que dá cor e amargor de fundo. E o açafrão, que no arroz alicantino não está ali para pintar de amarelo, mas para deixar um traço de terra e de flor seca no meio de tanto mar.

O caldo entra de uma vez só. Não se acrescenta caldo aos poucos como em risoto — o gesto é o oposto. Entra tudo, mede-se pela altura, e a partir dali ninguém mexe. O arroz cozinha em camada fina e uniforme, cada grão solto, seco por fora e inteiro por dentro.

Close do arroz a banda mostrando a superfície tostada e irregular do socarrat
Alicante, 2017. Arquivo pessoal de Leandro Lima.

O pontoSocarrat: o que não se apressa

No fim, quando o líquido já foi embora e o fogo continua, o fundo da panela começa a caramelizar. A camada que se forma ali é o socarrat.

É o ponto mais difícil do prato, porque a distância entre o socarrat e o arroz queimado é de segundos. Não existe termômetro para isso. Existe ouvido — o som muda — e existe cheiro. E existe alguém que já errou vezes suficientes para saber a hora de tirar do fogo.

Um prato de três ingredientes
exige mais ofício que um de trinta.
Não há onde se esconder.

De onde vem essa leituraQuinze anos entre a cozinha e a taça

Talvez por isso este seja um daqueles assuntos em que a trajetória aparece por inteiro.

Antes de olhar para uma mesa apenas como sommelier, passei anos dentro da cozinha. Foram mais de quinze anos entre cozinha, salão, gestão e vinho no Brasil, na Itália e na Espanha — incluindo passagens por casas como o Cibrèo, em Florença, e o Grupo Murri, em Alicante.

As fotos deste ensaio são de lá. Não vieram de banco de imagens: são de arquivo pessoal, feitas em Alicante em 2017, na panela de quem estava cozinhando. Escrevo sobre socarrat porque acompanhei o ponto, não porque li a respeito.

É dessa experiência que nasce a forma como a Métier pensa harmonização.

Dois caminhosNão existe vinho certo. Existe efeito escolhido

Harmonizar não é achar a fórmula do "vinho certo para o prato certo". É decidir o que se quer que aconteça na boca.

Caminho 1 Albariño · Rías Baixas, noroeste da Espanha
O que faz Renova · fresco, cítrico e salino, limpa o paladar entre uma garfada e outra
Caminho 2 Godello · branco espanhol de mais corpo
O que faz Acompanha · volume, textura e estrutura para seguir a profundidade do prato

As duas escolhas funcionam. Não são certo e errado — são efeitos diferentes sobre o mesmo prato. O Albariño corta e devolve o apetite a cada garfada. O Godello caminha junto, sustenta o peso do fumet e do socarrat.

A pergunta, portanto, nunca foi qual vinho combina. A pergunta é outra: o que você quer que o vinho faça à mesa?

Uma nota finalO vinho que Alicante guarda

Garrafa de Gran Fondillón Reserva 1964, Denominación de Origen Alicante, segurada na mão
Gran Fondillón Reserva 1964. Arquivo pessoal de Leandro Lima.

Já que estamos em Alicante, vale dizer o que a região guarda para o fim da refeição.

O Fondillón é feito de Monastrell sobremadurada na própria cepa, envelhece no mínimo dez anos e não leva adição de álcool nem de açúcar: tudo o que há na taça vem da uva. É reconhecido pela União Europeia ao lado de Jerez, Porto e Madeira, e pouquíssimas bodegas da denominação estão autorizadas a produzi-lo.

Um arroz a banda no almoço e um Fondillón no fim da tarde explicam Alicante melhor do que qualquer mapa. Um é economia de pescador virada em técnica. O outro é paciência virada em vinho.

Os dois começam do mesmo lugar: alguém que não teve pressa.

L.L.

São Paulo · 28 de agosto de 2026 Caderno I · N.º XII