Mesa longa de madeira na manhã seguinte a um jantar: garrafas vazias, taças usadas, guardanapos de linho e velas consumidas, sob a luz da janela
N.º XIII — ensaio

A Estrada dos Excessos

Ressacas, Blake, Clapton — e a medida que só se aprende no corpo.

13 outubro · 2026 · leitura de 3 minutos · por Leandro Lima

“The road of excess leads to the palace of wisdom.”

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

William Blake · Provérbios do Inferno, c. 1790

O ser humano muitas vezes conhece seus limites experimentando-os.

Gosto de beber. Mas, a cada dia que passa, odeio com mais força a ressaca. Já tive muitas — daquelas em que, ao acordar, a primeira promessa do dia é nunca mais beber daquele jeito. Uma promessa feita com a convicção de quem acabou de atravessar uma pequena tragédia pessoal. Uma tragédia conhecida. Cada nova ressaca carrega também o peso das anteriores. Até a próxima vez.

Depois de algumas dessas manhãs, comecei a perceber um dos pequenos paradoxos do prazer: sabemos que certas experiências têm um custo e, às vezes, resolvemos pagá-lo, com maior ou menor consciência. Na vida, nem tudo é equação e controle. Algumas coisas nos tiram da lógica do cálculo.

Quando somos jovens, acreditamos que o corpo é uma fonte inesgotável de recuperação. Podemos abusar dele porque, quase sempre, ele nos perdoa. Mas, com pequenos avisos, as regras vão mudando. Um belo dia, aquela mesma terceira taça a que estávamos acostumados nos deixa prostrados na cama no dia seguinte. Se fossem três garrafas, seriam três dias.

Há pessoas que aprendem pelo excesso
e outras que são destruídas por ele.

A primeira vez que ouvi a frase de Blake foi numa entrevista do músico inglês Eric Clapton. Ele a citava e completava, como quem fala por experiência própria, dizendo que não recomendaria esse caminho a todo mundo.

O complemento importa. Para alguns, o caminho do excesso pode levar à sabedoria. Para outros, leva à ruína.

Clapton aprendeu isso da forma mais dolorosa. Depois de anos de dependência de drogas e de álcool, encontrou o caminho da sobriedade, que mantém desde 1987 — e, em 1998, fundou na ilha de Antígua um centro de tratamento para dependentes. Mas nem todos conseguem fazer o mesmo retorno.

O vinho talvez seja uma das maiores expressões dessa contradição humana. Há milhares de anos, ele ocupa uma posição ambígua: entre alimento e intoxicação, entre cultura e prazer, entre celebração e perda de controle. Muito antes de qualquer discussão sobre consumo responsável, o excesso já fazia parte da experiência humana. As grandes festas, os banquetes, as celebrações religiosas e as vindimas eram momentos em que a sociedade permitia uma suspensão temporária da ordem cotidiana. O excesso, nesses contextos, não era simples descontrole: era ritual, uma forma de celebrar a vida e fortalecer vínculos.

Taça de vinho limpa, de cabeça para baixo sobre um linho dobrado, ao lado de um copo d'água no parapeito de uma janela em luz de manhã
A manhã seguinte também faz parte da mesa. · Imagem ilustrativa

O problema é que o limite não é igual para todos. Não existe uma medida universal capaz de definir a relação correta entre uma pessoa e o álcool. O que para uns é celebração, para outros pode ser destruição. A sabedoria está justamente em conhecer essa diferença — e, às vezes, nem isso é possível.

O vinho não é inofensivo. Como qualquer bebida alcoólica, exige consciência. Para algumas pessoas, não há limite seguro. Para outras, permanece a velha provocação tantas vezes atribuída a Oscar Wilde — que, ao que tudo indica, nunca a escreveu: tudo com moderação, inclusive a moderação.

Encontrar a medida justa talvez seja uma das coisas mais difíceis da vida. Não é regra fixa, nem vale igualmente para todos: cada corpo é único. No fim, esse é o aprendizado que vem depois de algumas ressacas. O prazer não está em ignorar o limite, mas em conhecê-lo.

Continuo gostando de beber. Gosto de uma mesa longa, de uma boa garrafa compartilhada, das conversas que se estendem quando ninguém quer ir embora. Mas gosto cada vez mais da manhã seguinte.

Meu caminho do excesso talvez tenha me levado a um pouco mais de sabedoria. Ainda assim, também não o recomendo a todos.

L.L.

São Paulo · 13 de outubro de 2026 Caderno I · N.º XIII

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