Uma única taça de vinho tinto sobre mesa de madeira, ao lado de uma garrafa, um relógio de bolso e um relógio de pêndulo, em luz dourada de fim de tarde
N.º V — ensaio

Ver e Olhar

O que as grandes verticais esquecem — e o que David Hockney sabia.

26 junho · 2026 · leitura de 4 minutos · por Leandro Lima

Imagem ilustrativa

David Hockney morreu em junho de 2026, aos 88 anos. Poucos artistas sabiam congelar um momento como ele. Sabia que, ao permanecer diante de uma cena por tempo suficiente, acabaria descobrindo algum detalhe que antes passara despercebido. Olhar, diferente de ver. Ver é automático. Olhar exige atenção, tempo, sensibilidade e percepção.

Toda vez que vejo mais uma daquelas fotografias de degustações de vinhos raros — garrafas e garrafas abertas, verticais intermináveis, garrafas meio vazias, taças meio cheias — sinto um incômodo. Não vejo apenas grandes vinhos. Vejo dentes roxos, gengivas cansadas e paladares estafados. Um line-up de vinhos que dá uma bela foto, mas que mereciam mais atenção. Sem ser moralista, mas será que aqueles vinhos estão sendo realmente apreciados ou apenas consumidos em modo automático, num entre-soi complaisant?

Longa fileira de garrafas de vinho abertas e taças sobre mesa de madeira, em salão de degustação à meia-luz
A foto impressiona; o paladar, esse, se cansa. · Imagem ilustrativa

Certas degustações estão longe de fazer justiça ao que dizem celebrar. Parecem um banquete pantagruélico de vinhos raros onde a abundância substitui a contemplação.

Não é que todos os vinhos raros sejam um templo e devam ser contemplados, mas vários com certeza merecem. O vinho escasso tem certa aura, cada garrafa é singular, tem uma história e uma intenção do produtor por trás dela. Uma garrafa rara não é apenas cara, ela é irrepetível, pois safra, evolução e contexto não se repetem. De que vale colocar vinte garrafas irrepetíveis lado a lado, constatar que são únicas e singulares, se nenhuma for realmente apreciada?

É como beber aura diluída.

Esse não é um texto contra as verticais. Degustações amplas e verticais têm valor de aprendizado real quando são organizadas com rigor. O problema é quando a vertical deixa de ser um instrumento de aprendizado para se tornar uma exibição de etiquetas. Às vezes tenho a impressão de que os participantes estão degustando a própria raridade da garrafa, e não o vinho que ela contém. Mas que gosto tem a raridade, afinal?

Críticos e degustadores de vinho importantes sabem que degustações longas cansam o paladar. Basta participar de uma grande feira de vinhos: existem os vinhos do começo, e existem os vinhos do fim.

Se o intuito é aprender, seis vinhos degustados com calma ensinam muito mais do que uma corrida com quinze ou vinte. Não se trata somente de degustar garrafas escassas: a própria atenção humana é escassa e limitada.

Muitos produtores renomados esperam anos antes de colocar seus vinhos no mercado. Fazem isso para garantir não apenas valor comercial, mas qualidade, equilíbrio e prontidão para o consumo. Há uma preocupação genuína com aquilo que chegará à taça do cliente.

Esses vinhos são concebidos para serem apreciados. É difícil imaginar que tenham sido pensados para disputar atenção com outras dezenove garrafas sobre a mesma mesa.

Talvez seja por isso que pensei em David Hockney. Ele entendia que ver e olhar são coisas diferentes, e que algumas coisas só aparecem para quem permanece tempo suficiente diante delas.

Posso estar errado. Talvez certas mesas cobertas de garrafas lendárias sejam exatamente o que seus participantes procuram, mas não consigo evitar a sensação de que alguns dos maiores vinhos do mundo merecem mais do que alguns minutos entre uma taça e outra.

Hockney sabia congelar um momento. Os grandes vinhos também. O mínimo que podemos fazer é parar por tempo suficiente para percebê-lo.

L.L.

São Paulo · 26 de junho de 2026 Caderno I · N.º V